Estamos vivendo uma epidemia de diagnósticos?

Olá, Membros. Sejam bem-vindos a mais uma edição do Observatório. É um prazer ter vocês aqui, priorizando a própria saúde mental.

O ritual vocês já conhecem: é hora de fechar as outras abas e focar no agora.

Aproveitem a leitura.

A Visão do O Observatório

Final de semana, meu pai me enviou uma reportagem sobre “epidemia de diagnósticos” e pediu a minha opinião. Resolvi trazer essa reflexão para vocês também. O texto falava sobre o aumento dos diagnósticos de transtornos mentais e sobre a chamada “medicalização do sofrimento”.

Quando falamos em medicalização, quase nunca estamos falando de uma coisa só. Essa discussão tem várias camadas, e olhar apenas para uma delas costuma gerar conclusões apressadas.

Uma das camadas é bem prática e acontece com frequência. De um lado, há profissionais que não receberam formação suficientemente aprofundada em saúde mental e que, diante do sofrimento psíquico, acabam recorrendo ao único recurso que conhecem: o medicamento. Do outro lado, vivemos em uma cultura cada vez menos tolerante ao desconforto, o que faz com que muitas pessoas tenham pouco repertório para reconhecer e nomear as próprias emoções. Sentem um incômodo, uma frustração, uma angústia e, antes de compreender o que aquilo significa ou de onde vem, já desejam eliminar o desconforto.

Outra camada central nessa discussão é o diagnóstico. Para que exista um transtorno mental, não basta haver desconforto. O diagnóstico exige sofrimento significativo e prejuízo relevante na vida da pessoa. Não é “estou triste” ou “estou ansioso” em determinado momento. É um quadro persistente, que interfere de forma importante no funcionamento pessoal, profissional ou relacional. Quando essa diferença não é respeitada, surgem diagnósticos equivocados.

Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer algo importante: a psiquiatria evoluiu muito. Hoje
entendemos melhor o funcionamento do cérebro, temos critérios diagnósticos mais estruturados e conseguimos identificar quadros que antes passavam despercebidos. Além disso, os tratamentos melhoraram nas últimas décadas. De modo geral, os medicamentos são mais toleráveis, mais seguros e mais confortáveis, o que aumenta a adesão. E quando o tratamento é melhor, mais pessoas procuram ajuda e conseguem permanecer em acompanhamento, o que é muito positivo, porque aumenta a qualidade de vida das pessoas.

Por isso, reduzir a discussão a “excesso de diagnóstico” não dá conta da complexidade. Existe despreparo técnico, mas também existe mais conhecimento. Existem diagnósticos equivocados, mas também existem diagnósticos que antes eram ignorados. E existe ainda uma camada que raramente é nomeada com clareza: o estigma.

Parte do incômodo social com o aumento dos diagnósticos não é apenas preocupação com exageros. Muitas vezes é desconforto com a própria ideia de adoecimento mental. Como se ainda fosse difícil aceitar que transtornos existem e precisam ser tratados. É nesse ponto que surgem frases como “agora todo mundo tem um diagnóstico” ou “agora todo mundo toma remédio”. Isso pode parecer uma crítica racional, mas frequentemente carrega preconceito disfarçado.

Há também o impacto das redes sociais. O volume de conteúdo que estimula autodiagnóstico é grande, mas pessoas não são aptas a se autodiagnosticar. Diagnóstico em psiquiatria exige avaliação criteriosa, análise de contexto, intensidade, duração e prejuízo funcional. A própria psiquiatria reconhece que transtorno mental é exceção, não regra. Sofrimento é parte da experiência humana; transtorno mental é outra coisa.

Por fim, existe uma camada cultural que atravessa tudo isso: estamos cada vez menos tolerantes ao ‘‘imperfeito’’. Há uma tendência crescente de querer eliminar qualquer sensação desagradável, como se toda frustração fosse um erro a ser corrigido. Isso aparece em várias áreas como uma espécie de “otimização” da experiência humana. Na psiquiatria, essa lógica pode reforçar a ideia equivocada de que tratamento se resume a medicamento, quando na prática envolve psicoeducação, desenvolvimento de tolerância ao desconforto, psicoterapia quando indicada, mudanças de hábitos de vida e ampliação do repertório emocional.

Quando alguém fala em “epidemia de diagnósticos”, eu tendo a pensar que talvez estejamos vendo vários fenômenos acontecendo ao mesmo tempo: mais acesso à informação, mais reconhecimento de quadros antes ignorados, erros diagnósticos que ainda precisam ser corrigidos, intolerância social ao sofrimento e uma cultura que busca alívio imediato. Tudo isso dentro de uma sociedade que ainda tem dificuldade de lidar com o sofrimento psíquico sem estigma.

A Ponte para a Ação: A Ferramenta

Quando eu me deparo com um tema complexo, a primeira coisa que faço não é formular uma conclusão imediata, é me permitir ficar em dúvida. Eu nem sempre sinto urgência em ter uma opinião pronta. Pelo contrário, a minha tendência é assumir que talvez eu ainda não esteja vendo tudo, que talvez existam aspectos técnicos, culturais ou emocionais que eu ainda não considerei. Muitas vezes, antes de dizer o que eu penso, eu me pergunto se realmente sei o suficiente para sustentar aquela posição.

E isso inclui uma coisa que nem sempre é confortável: reconhecer que, em alguns assuntos, eu simplesmente não sei. Não sei o suficiente, não tenho todos os dados, não domino aquela área. E dizer “eu não sei” não me diminui. Me protege de conclusões precipitadas e me dá espaço para ampliar o olhar antes de fechar uma ideia.

Por isso, a ferramenta que proponho aqui não é um roteiro nem um método, mas um treino mental: aprender a pensar em camadas antes de fechar uma opinião.

Pensar em camadas significa assumir que:

  • Um problema raramente tem uma única causa.

  • Uma explicação raramente é suficiente.

  • E a primeira interpretação que surge quase nunca é a mais completa.

Significa pausar antes de concluir e perguntar a si mesmo:

  • “Que outras dimensões podem estar envolvidas aqui?”

  • “Existe um aspecto técnico que eu não domino?”

  • “Existe um aspecto cultural influenciando isso?”

  • “Existe algo emocional que está moldando a minha reação?”

Esse tipo de pensamento amadurece a análise, amplia o repertório e reduz a impulsividade.

E isso vale para muitos assuntos além da discussão sobre diagnósticos. Vale para conflitos familiares, para decisões profissionais, para críticas que você recebe, para escolhas que precisa fazer. Sempre que a situação parecer simples demais, provavelmente ela não é.

Pensar em camadas é sair da simplicidade e entrar na complexidade.

Para Levar com Você

Talvez a palavra que melhor descreva tudo o que foi discutido aqui não seja “excesso”, nem “erro”, nem “epidemia”. Talvez seja complexidade.

E complexidade não é sinônimo de algo difícil. A gente costuma usar essa palavra quase como crítica, “essa pessoa é complexa” ou “essa situação é complexa”, como se isso significasse problema. Mas, na verdade, complexidade diz respeito a sistemas em que vários elementos interagem entre si, em que pequenas mudanças podem gerar grandes impactos, enquanto intervenções maiores nem sempre geram o resultado esperado.

A vida funciona assim. Saúde mental funciona assim. Relações funcionam assim. Sociedade
funciona assim.

Quando reconhecemos que estamos lidando com sistemas complexos, a urgência diminui, a necessidade de ter respostas rápidas enfraquece, a exigência de controle absoluto perde força, e no lugar disso, entram pausa, reflexão, cautela e, principalmente, paciência.

Nem toda situação precisa de uma solução imediata.
Nem toda dúvida precisa ser eliminada rapidamente.
Nem todo desconforto é um erro que precisa ser corrigido.

Às vezes, estamos apenas diante da complexidade da vida.

Se este conteúdo fez sentido para você, compartilhe com quem também valoriza a saúde mental. Convide-o para fazer parte do nosso observatório.

1  Isabella Vieira Belleze - Médica Psiquiatra

2  Eduardo Weigang de Campos - Administrador e Educador Físico

Continue lendo